Apagão Aéreo: A Cara do Brasil

Não conheço a rotina de um aeroporto. Na verdade, nunca entrei em um grande aeroporto, apenas em alguns pequenos... mas conheço algumas rodoviárias... fiz apenas uma viagem de avião, mas sou privilegiado diante da realidade do povo desse país. Um povo que se espreme em ônibus super-lotados e perdem 4 horas por dia no caminho de ida e volta do trabalho, na grande São Paulo. Mas estes não tem do que reclamar, pelo menos estão trabalhando...

Essa semana completou 6 meses da maior tragédia aérea do Brasil. E 6 meses de “Apagão Aéreo”. Seis meses de notícias na TV e no jornal, do caos nos aeroportos, longe da realidade do povo. Eu que sou privilegiado estou muito longe desse caos e das conseqüências dele... e assisto os prejudicados reclamando na TV... esses sim, alguns dos maiores privilegiados desse país, acostumados a viajar de avião... reclamando do caos que vivem nos aeroportos...

Experiência nova para a maioria deles, muitos que estão conhecendo a realidade do Brasil... vivendo uma situação caótica nos aeroportos, esperando para poder viajar com toda velocidade dos jatos, com todo conforto... finalmente esse povo está experimentando a realidade brasileira... realidade que o povo desse país não conhece de aeroportos, mas de escolas, em filas para conseguir uma vaga para o filho estudar numa escola abandonada, sem condições físicas nem humanas de proporcionar uma educação digna, com professores que não podem mais nem reclamar e fazer uma greve como antigamente, pois sua situação financeira está tão caótica que seria luxo fazer uma greve.

Imaginem esperar horas na fila, não para viajar de avião, mas para ser atendido por um enfermeiro na fila de um hospital... médico? Talvez um estagiário recém formado, afinal que médico vai se sujeitar aos riscos de trabalhar em hospitais de periferia para ganhar tão pouco? Quem espera atendimento num hospital público não tem cadeiras acolchoadas como nos aeroportos... muitos pacientes em situação precária aguardam no chão ou em macas nos corredores... e as vezes macas são um privilégio.

Pois é... aproveitem, privilegiados desse Brasil, a situação caótica que vocês vivem nos aeroportos. Essa semana, após sair da faculdade, fui abordado por um homem desesperado, que disse ser lixeiro, implorando para que eu não o humilhasse. Me disse que seu filho nasceu sem ânus e morreu de infecção aos 11 meses de idade. Tentando não chorar, me disse que precisava de 170 reais para retirar o corpo do bebê do hospital... ainda faltavam 9 reais, que ele me pediu quase chorando... infelizmente eu só tinha 10, mas pelo menos cobria o que faltava... História real ou não, não importa... Me senti impotente, sem saber o que fazer para ajudar... esse homem estava desesperado pedindo ajuda na porta da faculdade... que situações se passam dentro dos hospitais públicos desse país?

Mas quando ligo a TV, o grande assunto do momento é o caos que vivem alguns privilegiados nos aeroportos do Brasil... infelizmente nossa elite sofre tão pouco... claro, alguns sofrem mais, quando alguém de sua família ou algum amigo é “vítima da violência”...

Quem sabe um dia, quando todos os brasileiros, dos mais pobres aos mais ricos, aprenderem a viver em sociedade, não precisaremos mais nos preocupar com violência e apagões aéreos... quando os jovens pobres puderem viver e trabalhar dignamente, com uma educação digna de um ser humano... quando os trabalhadores assalariados puderem viver com um salário digno e fazer cursos de inglês para trabalhar no controle de tráfego aéreo... quando a elite reconhecer que o povo merece viver, trabalhar e receber com dignidade, não precisaremos mais nos preocupar com violência e apagões aéreos.

Claro, para a vida do povo melhorar, algumas famílias vão ter que aprender a viver com alguns milhões a menos sobrando em suas contas... mas poderão dormir melhor e deixar no passado manchetes sobre socialites mortas por ladrões que fogem de bicicleta, estudantes paraplégicas após tiros de balas perdidas vindas de favelas, crianças arrastadas em carros roubados...

Quem não estiver disposto a dividir, por favor vá embora, será um favor para o Brasil... vá para um lugar melhor, sem violência, países desenvolvidos... mas vá se acostumando... esses países se desenvolveram porque um dia aprenderam a dividir.

A insegurança e o caos da aviação brasileira vieram à tona após o acidente, surpreendendo quem se sentia seguro nos céus...

Que o Apagão Aéreo sirva de lição: ninguém estará seguro e confortável lá em cima, enquanto os que estão aqui embaixo não puderem trabalhar com dignidade.

Daniel Coelho
31/03/2007
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