Selvagens na Jaula

Em casa, tivemos uma cachorra que morreu quando eu tinha 16 anos. Ela viveu 12. Eu tinha 4 anos e me lembro de quando fui com minha mãe buscá-la, lembro de estar no carro, de ver uma ninhada de cachorrinhos brincando, correndo... levamos uma fêmea e minha avó ficou com um macho. Ele morreu bem mais cedo... Eu e meus irmãos passamos a infância com aquela cachorra, que morou em duas casas. Viveu como uma cachorra normal de uma cidade pequena do interior, vivia no quintal de casa, era grande e não tinha muita liberdade pra entrar dentro de casa, entrava quietinha, com medo de levar uma bronca como sempre, mas adorava estar perto de nós, éramos sua companhia... as vezes conseguia escapar para a rua e não queria voltar pro quintal... mas nunca ia muito longe, no máximo andava pelas ruas do bairro... acho que a maior distância que ela se afastou foi correndo comigo...

Eu tinha pena dela, que passou toda a sua vida no quintal de casa com algumas aventuras pelo bairro... nós andávamos pela cidade inteira, viajávamos, e ela ficava presa no quintal... pulava muito quando chegávamos após uma semana de viagem, que ela passava sozinha. Talvez em algum lugar seu instinto ficava angustiado preso por aqueles muros. Mas pelo menos ela tinha o quintal inteiro, alguns cachorros nem isso tem de espaço... Mas esse era o mundo dela, o quintal onde passou a vida toda. Talvez vivesse conformada com aquela vida, mas lá no fundo... com certeza um instinto selvagem, primitivo, ainda sentia falta de correr por campos e florestas como seus ancestrais lobos. De caçar outros animais para comer carne, e não aquela ração de todos os dias... de viver em manada (ou alcatéia...) e não como cão de guarda fazendo companhia a seres humanos, ter uma família e não ser uma propriedade, viver na natureza onde os lobos não tem donos.

Tenho o mesmo sentimento hoje ao visitar um zoológico. Ver aqueles animais ali presos, naquele cantinho, engaiolados, seres vivos, não mais selvagens, mas domesticados, vivendo em um mundinho que se limita a expor a vida animal em uma vitrine. Acho um horror, por mais que eu goste dos animais, ou talvez por isso mesmo. Me parte o coração ver animais presos, pássaros numa gaiola. Me entristece ver a tristesa nos olhos desses animais. Talvez por isso animais gostem de mim, pois entendo o sofrimento deles.

Então olho para o bicho homem... perdão, ser humano. As vezes esqueço que o bicho homem considera uma ofensa ser chamado de animal. Precisa de penduricalhos pendurados pelo corpo para disfarçar ao máximo seu corpo natural. Antigamente bastavam penduricalhos de enfeite, jóias, mas hoje é mais elegante pendurar pequenas máquinas, quanto mais melhor, mais bonito. Mais sofisticado... Roupas que de preferência cubram o corpo todo. Andar sem roupas pelas ruas de uma cidade, totalmente nú, é crime, dá cadeia. Jogar comida no lixo não é crime, para alguns não é considerado sequer moralmente incorreto, apesar de tanta gente morrendo de fome. Mas tirar a roupa é crime, mesmo que seja na praia. Tem que cobrir pelo menos um pouco... apenas tribos primitivas, de comportamento mais rude, mais selvagem, aceitam a nudez em público. Mas o bicho homem civilizado, domesticado, tem vergonha de ser animal.

O homem moderno trabalha operando máquinas. Até para escrever, atividade das mais antigas, é necessário um computador. Antes era a máquina de escrever, antes à mão, no papel depois dos tecidos mais rudes, e no início na pedra. Quanto mais sofisticado o homem, mais sofisticada a máquina que ele opera. Trabalhador braçal está em extinção. O rendimento é baixo. Existe máquina pra tudo. Quanto mais evoluído o país, mais evoluídas as máquinas. Europeus e norte-americanos podem se espantar com a forma manual e arcaica de se fazer as coisas no Brasil. Aqui nós vemos nos filmes que até para pregar um prego eles tem máquina. Aqui usamos martelos. Nas tribos indígenas mais isoladas não existem pregos. Os índios vivem como humanos menos domesticados, mais selvagens e próximos da natureza. Caçam animais e não cultivam a terra, apenas extraem os frutos da mata. Uma sociedade humana mais primitiva, como um dia foram os povos europeus primitivos, tribos bárbaras que em sua maioria foram dizimadas e combatidas pelos mais evoluídos Romanos. Esta civilização, influenciada pela cultura grega, colonizou o mundo ocidental. Destruiu culturas ricas, que assim como as tribos indígenas da Amazônia viviam em paz e compreendiam a natureza. Sabiam extrair remédios, tintas das plantas. Hoje cientistas passam anos na floresta tentando descobrir os segredos que as tribos indígenas e civilizações Maia, Asteca e Inca, dizimadas por colonizadores portugueses e espanhóis, conheciam a séculos atrás.

Ainda restam tribos indígenas na Amazônia, que hoje tem seu valor reconhecido por uma civilização evoluída que levou séculos para entender a sabedoria destes povos primitivos. É incrível como o homem moderno é burro. Precisa de décadas para entender e dar valor ao conhecimento antigo. Assim como cientistas são burros, estudam, fazem uma faculdade e desprezam tudo que é natural, antigo e primitivo. Precisam acumular décadas de experiência e conhecimento, pesquisas para comprovar e reconhecer a sabedoria que se construiu através de séculos. Desprezam tudo que não pode ser cientificamente comprovado e pesquisado. Não reconhecem, os burros, o curto alcance e a grande limitação de sua ciência. Vivem em seu pequeno mundinho, limitado por teorias, cercado de fórmulas e pesquisas que restringem sua mente àquilo que pode ser cientificamente comprovado. Rejeitam tudo que não pode ser provado pela ciência. Por isso a ciência está em evolução, está constantemente expandindo seus limites. Porque avança junto com a tecnologia. A ciência negava no passado coisas que reconhece hoje, apenas porque a tecnologia permitiu que fossem comprovadas. A ciência evolui atravessando fronteiras que ela mesma criou.

A ciência é fruto da mente humana, é criação do homem. Criação de um homem que não aceita ser apenas um animal, não aceita ser fruto do meio, mas sim criador do meio. A ciência é literalmente o jogo criado pelo ser humano para brincar de Deus. A ciência é fruto da revolta humana, da negação de simplesmente aceitar sua condição animal, sua condição natural, tão animal quanto qualquer outra espécie. Sua tentativa de controlar o mundo e não aceitar as limitações de seu papel no mundo.

Ao contrário da maioria dos cientistas, presos em seus dogmas, tenho a mente aberta. Deus existe, o Diabo existe? Quem sou eu pra achar que sim ou que não... mas o que sabemos sobre Deus e o Diabo vem da Bíblia, e quase tudo na Bíblia é metáfora... Seriam os Deuses astronautas? Seria Deus a metáfora de uma civilização humana de outro planeta, que colonizou o planeta Terra e se comunicou com os profetas que escreveram a Bíblia? Por que não? A própria Bíblia diz que o ser humano não tem capacidade de compreender Deus. Seria a palavra Deus uma figura de expressão? Quem pode negar isso? A própria Bíblia permite essa interpretação, assim como toda ela necessita ser interpretada. Por isso ela não fica ultrapassada. Sem dúvida é fruto de uma mente muito além da nossa capacidade de compreenção... Seria Jesus um enviado dessa civilização? Seriam seus milagres fruto de um uso muito mais eficiente dessa coisa que temos dentro da cabeça e usamos tão mal? Seria um conhecimento que hoje estamos conhecendo através de terapias alternativas como os chamados Reiki e Toque Terapêutico? Terapias Alternativas que a ciência teima em combater, como a Acupuntura, terapia milenar da Medicina Tradicional Chinesa que aos poucos é aceita no Ocidente.

Muitos ainda combatem essa medicina oriental. Assim como a ciência combateu tanta coisa, e após séculos ou décadas, a limitada ciência conseguiu evoluir a ponto de compreender aquilo que antes negava. A evoluída civilização européia, impulsionada pela mesma Igreja Católica que destruiu a cultura dos antigos povos europeus através de sua Inquisição, destruiu também a cultura de civilizações que hoje começamos a compreender o quanto eram mais avançadas que os europeus na época, as civilizações Asteca e Inca.

Claro que felizmente a humanidade evolui e hoje os cientistas estão deixando para trás esse comportamento de atirar primeiro para perguntar depois. Claro que cientistas precisam de uma mente aberta para investigar e compreender os fenômenos. Mas a visão limitada motivou uma guerra entre a ciência e a religião que ainda hoje, apesar de enfraquecida, ainda não acabou. Ciência e religião batem de frente, cada uma defendendo seu ponto de vista quando na verdade apenas possuem filosofias distintas para os mesmos fenômenos.

Por exemplo o nascimento do Universo e a Teoria da Evolução. A ciência defende o Big Bang e a Evolução de Darwin, enquanto a religião defende a criação do universo e dos seres vivos por Deus. É incrível o combate travado durante séculos sobre pontos de vista que estão corretos, dos dois lados. Cada um dentro de sua limitação, de sua jaula, não percebe que ambas as teorias se encaixam perfeitamente. A Bíblia narra os fatos em poucas palavras, através de metáforas, enquanto a ciência explica os fatos em detalhes, de maneira que o homem não seria capaz de compreender a dois mil anos atrás. Mas podia compreender a Bíblia, assim como muitos cientistas de hoje reconhecem a sabedoria das escrituras milenares. Ambos contam a mesma história com palavras diferentes, para públicos diferentes. A Bíblia diz que o tempo de Deus é infinito, enquanto a ciência fala em milhões de anos. Que homem é capaz de compreender essa quantidade de tempo? A ciência fala nas fases de evolução desde o início do Universo e as fases da vida na Terra, enquanto a Bíblia diz que em 7 dias Deus criou o Universo e a vida na Terra. Tente explicar hoje a um índio a versão da ciência. Ou pergunte a ele sobre o início da vida e do Universo, e ele contará uma história parecida com a da Bíblia.

Daniel Coelho
28/11/2009
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