Tiririca, o palhaço representa o povo

Podem até cassar o Tiririca, mas a vitória que ele conquistou nas urnas ninguém tira dele. Espero que sirva de estímulo para que ele aprenda a ler e escrever, e seja eleito vereador daqui 2 anos. Tiririca é o legítimo representante do povo, tanto que não sabe ler e escrever. Podem acusá-lo por isso, mas os maiores culpados são políticos sujos que fazem questão de sabotar a educação do povo, para que este povo permaneça alienado pelas mentiras da mídia, passando pela lavagem cerebral da TV, incapaz sequer de ler notícias. Tiririca pode ser mais um analfabeto em um país onde a educação é propositalmente ridícula.

O problema da educação vai muito além do analfabetismo, em declínio. Porém o analfabetismo funcional é crescente, e sinto muito que São Paulo seja um grande exemplo de analfabetismo funcional. Estudei em escola particular, mas me lembro que antes do PSDB assumir São Paulo, eu era criança, tinha amigos em escolas públicas e eles aprendiam as mesmas coisas que se ensinava nas escolas particulares. Os professores das escolas públicas ainda tinham um salário digno, que já deixava a desejar, mas era digno.

Hoje, após 16 anos de PSDB, o que mais falta nas escolas públicas é dignidade. Professores desprezados pelo governo, maltratados por muitos alunos, insatisfeitos com a escola, o ensino de péssima qualidade, alunos que não levam as aulas a sério, pois sabem que não serão reprovados, ainda prejudicam os que querem aprender... a escola pública é uma vergonha para São Paulo, após 16 anos de PSDB. O que representa muito bem os ideais neo-liberais tucanos: se não podem privatizar e acabar com a escola pública, direito constitucional da população, a tornam precária, criando todas as condições para o mercado atender a carência de escolas de qualidade, apenas para quem puder pagar escolas particulares... que 20 anos atrás, eram poucas.

Tiririca, analfabeto, representa o povo que não recebeu uma educação digna, não teve seu direito respeitado. Por isso foi votado por mais de 1 milhão e 350 mil eleitores, o segundo Deputado Federal mais votado na história do Brasil, perdendo apenas para o saudoso Enéas Carneiro, em quem tive o prazer de votar, e não foi protesto. Não votei no Tiririca, mas defendo seu direito de representar no Congresso o povo que ele representa de fato, que o elegeu para avacalhar o Congresso, para descontar a raiva que sente ao ser feito de palhaço pelos congressistas "sérios". Além disso, agradeço ao Tiririca por ajudar a eleger aquele que acredito seja um dos mais sérios, dignos e honrados Deputados Federais da safra 2010, o Delegado da Polícia Federal Protógenes Queiróz, odiado pela Revista Veja, em quem tive o prazer de votar.

O voto de protesto é uma tendência crescente. Tornou Enéas um fenômeno eleitoral. Mas pelo menos Enéas era um candidato sério, capaz, médico, militar, professor, escritor... sua terra natal era a Amazônia. Extremamente inteligente, soube explorar o voto de protesto. Mas era um homem sério, honrado e idealista honesto. Nacionalista, amava o Brasil. Militar de origem amazônica, sabia da necessidade de proteger o mais precioso patrimônio do Brasil, a floresta. Protegê-la do desmatamento e da cobiça internacional.

Mas hoje, o voto de protesto elegeu Tiririca, que não sabe o que faz um Deputado Federal. Democracia é isso, por isso não sou contra. Acho que o verdadeiro atentado a democracia nas eleições é o voto obrigatório. Pessoas descontentes com a política, com razão, obrigadas a votar, votam em protesto, anulam... dão um tapa na cara de políticos sujos que sorriem em seus belos ternos durante a campanha. O voto de protesto é consequência não só da revolta, mas do voto obrigatório. A maneira mais simples de acabar com o voto de protesto, com o voto nulo, é tornar o voto facultativo. É bom fazer isso, ou daqui 4 anos teremos saudades de 2010, quando Tiririca sozinho concentrou os votos de protesto e ajudou eleger gente séria.

Aqui em Campinas, em 2008, foi eleito um vereador cuja campanha foi circular pelo centro da cidade fantasiado, com um megafone a mão, durante mais de 1 ano. Eleito com quase 2 mil votos, enquanto muitos candidatos sérios, inclusive vereadores que concorriam a reeleição e tiveram mais votos, ficaram de fora. Agora foi o Tiririca, daqui 2 anos, se for mantido o voto obrigatório, haverá uma enxurrada de vereadores eleitos para avacalhar. Daqui 4 anos, o Congresso Nacional se tornará um verdadeiro circo, com palhaços profissionais.

É preciso acabar com a obrigatoriedade do voto. A crescente onda de protestos reflete a revolta do povo, reflete o amadurecimento do povo com relação a política. Que cada vez mais se revolta com os políticos. Como melhorar isso? Voto facultativo. Vai votar apenas quem realmente tiver interesse, quem realmente levar a política minimamente a sério, quem pelo menos escolher seus candidatos com algum critério. Ninguém vai sair de casa ou deixar um churrasco ou a piscina se não considerar que votar vale um pouco de seu tempo. Quem está lendo isso, se interessa por política, e pensou bem em quem votar. Mas o seu voto vale tanto quanto o voto de alguém que não sabia em quem votar, e pegou qualquer santinho no chão, a caminho da urna. Infelizmente, candidatos porcos, que jogam santinhos nas ruas e espalham placas, fazem todo tipo de sujeira... acabam levando vantagem nas urnas com essa atitude porca.

A seriedade da política brasileira depende de acabar com o voto obrigatório. Só vai votar quem tiver o mínimo interesse, que leva política a sério no mínimo para querer votar. Não vai perder tempo para votar em protesto ou anular o voto. Parte da sociedade, que tiver o mínimo de interesse, tem maturidade e consciência política para votar. Quem não se interessa, não deve ser obrigado a votar. Democracia é isso. Liberdade para votar ou não, e protestar a vontade. Com o voto obrigatório, a política brasileira se tornará uma palhaçada de fato. Com o voto facultativo, candidatos porcos perderão os votos daqueles que escolhem candidatos catando santinho no chão. Finalmente teremos seriedade na política, pois teremos seriedade na escolha do eleitor. Quem não pensar pra votar, não vai perder tempo votando. Melhor pra todo mundo.

Mais importante: não é apenas o voto para o Legislativo que será mais consciente, se facultativo. O voto para eleições majoritárias também será mais maduro, pensado, consciente. Para prefeito, governador, presidente e até senador, um fator de peso para escolha de grande parte do eleitorado é simplesmente... pesquisas eleitorais. Encarando eleições como competição esportiva, grande parte do eleitorado, sem consciência política, prefere ficar do lado que está ganhando. Vota em quem lidera as pesquisas, seja para "ganhar", seja por considerar simplesmente que o líder nas pesquisas deve ser o melhor, simples assim. Acredite, muita, muita gente escolhe assim. Gente que não pensa pra votar, não leva política a sério. Gente que, se não fosse obrigado a votar, não iria perder seu tempo votando, pois não tem o mínimo interesse sequer em conhecer os candidatos...

Acho que outro fator importante para melhorar a política brasileira, seria criar alguns critérios simples para limitar a quantidade de candidatos. Tem candidato demais... pra vereador então, parece que tem mais candidato que eleitor... se não tem seriedade na seleção de candidatos, não tem limites mínimos, como exigir seriedade do eleitor? Um limite de 10 vezes a quantidade de candidatos por vaga, não seria bastante razoável? Não exigiria um mínimo de critério para seleção dos candidatos por parte dos Partidos? Não é mais que suficiente? Critérios simples para limitar candidaturas iria fortalecer e valorizar os Partidos sérios. Tudo isso, na reforma política, seria fundamental para elevar o nível da política brasileira, e também amadurecer a consciência política do povo brasileiro. Seriedade na política, seriedade no voto. Honestidade na política, respeito no voto.

Todo debate político é inútil, quando a maioria vota inconsciente.

Daniel Coelho
05/10/2010
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