Mendigos, Vítimas do Coração

Dia desses em frente a uma padaria, algumas pessoas estavam olhando preocupadas para um mendigo caído de mal jeito na calçada... parei para olhar se ele estava vivo, mas respirava... olhando com atenção aquele mendigo andei pensando esses dias e me lembrando de algumas coisas... se tem uma coisa que me dói é ver essas pessoas vivendo nas ruas, na miséria absoluta, esqueléticos, dormindo nas ruas, desabrigados, sem ter o que comer, tomando cachaça pra não sentir fome, mantendo-se bêbados, com a mente anestesiada, dopados para evitar o sofrimento. Por isso evito olhar para eles, para não me sentir mal.

Há vários motivos e uma combinação deles que levam as pessoas as ruas. Crianças que fogem de casa para fugir de maus tratos, crescem nas ruas sem a mínima noção do convívio em sociedade, aprendem apenas a lei da sobrevivência, selvagens na selva de pedra. Drogados, viciados, que já caíram no vício para fugir de outros problemas. E muitos homens que desistiram da vida. A grande maioria dos moradores de rua são homens, existem poucas mulheres nessa vida miserável.

Acredito que a grande maioria desses homens acabou nas ruas devido a depressão. São doentes que desistiram da vida, por falta de motivação para viver, mas felizmente não resolveram acabar de vez com suas vidas, recorrer ao suicídio, mas desistiram da vida, abandonaram tudo, sumiram e esperam a morte enquanto vagam pelas ruas. Muitos deles apresentam um quadro típico de depressão: falta de vontade de viver, desmotivados. Aceitam comida, esmolas, mas não tem força mental para trabalhar, alguns até tentam, mas não conseguem enfrentar a rotina de trabalho. Não querem saber de nada, esperam apenas a morte, pela falta de coragem ou insanidade o bastante para se matarem. O que seria ainda pior.

Sei disso pois a algum tempo passei por uma crise de depressão profunda. Conheci esse sentimento de total falta de vontade de viver, pensamentos suicidas, nenhuma vontade de viver, total falta de motivação, total falta de vontade de fazer qualquer coisa. Foi assim que compreendi porque tantos homens acabam nessa situação, desistem de tudo e acabam nas ruas, com uma única vontade na vida, morrer logo. Percebi que eu poderia acabar assim se não reagisse. O que me deu forças para levantar foi a motivação que transformou minha vida a partir dessa experiência de depressão profunda.

Atravessei um período de auto-conhecimento, de avaliação de toda a minha vida, de compreensão de todos os fatores, vários fatores, que me levaram ao fundo do poço. Além de uma soma de fatores e problemas, como me sentir perdido, sem rumo, indeciso sobre que direção seguir na vida, que carreira seguir, o que escolher para o resto de minha vida, aquela dúvida que atormenta todo jovem, adolescente, sem experiência de vida, ter de escolher um curso para a inscrição no vestibular... dúvida que não acaba... hoje, mais velho, vejo tanta gente que mesmo após uma longa carreira de sucesso, ainda alega que não sabe o que quer da vida... tanta gente que tomou uma decisão na escolha da faculdade, mas mesmo depois de formado tem dúvidas sobre a escolha que fez...

Porém, o fator culminante para me derrubar foi um coração partido. Depois dos 20 anos, eu achava que meu coração já estava calejado, que já estava vacinado contra paixões e frustrações amorosas. Mas já passei por mais duas depois dos 20, uma leve e outra fulminante, que me levou ao fundo do poço e uma completa reavaliação da vida. Foi um período difícil, mas que transformou minha vida, me deu um sentido, um rumo na vida: entender e compreender esse fator que me levou a sofrer em depressão: amor. Foi um período de muita reflexão, onde aprendi muita coisa, entendi muita coisa, observei muita coisa. Enquanto experimentava o auto-conhecimento, entendi a importância do amor e a desgraça da falta de amor. Entendi o quanto o mundo sofre com a falta de amor.

Percebi quantas pessoas vivem na miséria, mesmo dirigindo um carro de luxo, mesmo sorrindo para as fotos das colunas sociais, por trás de sorrisos falsos e pílulas de anti-depressivos, a grande maioria das pessoas hoje vive uma vida miserável. Frustrados e deprimidos, buscando alívio para o sofrimento de sua alma no trabalho, no lazer, em jogos, esportes, distrações para passar o tempo, álcool, drogas, legais ou ilegais, cocaína ou anti-depressivos, festas, internet, qualquer coisa para ocupar a mente e distrair a cabeça de seu sofrimento. Pois hoje em dia, a grande maioria das pessoas não pode parar, pois se parar vai sentir o sofrimento de seu coração.

Hoje, quase todos sofrem por falta de amor. Homens sofrem a falta da mulher que amam. Mulheres sofrem a falta de serem amadas. Homens querem amar, mulheres querem ser amadas. Parece fácil, mas na prática essa química não está funcionando mais. Crianças vem ao mundo em casais que não se amam, e também sofrem com a falta de amor dos pais. Crescem, então os pais sentem falta de amor dos filhos. Pois o amor entre o homem e a mulher é proporcional ao amor pelos filhos. Esse amor pelos filhos também irá se refletir no amor dos filhos pelos pais. Então vivemos as consequências de um mundo onde o amor é cada vez mais escasso, onde as pessoas não sabem amar e não são amadas.

Quando criança, ouvi a história de um homem que virou mendigo após perder a família. Em um acidente de carro, que ele dirigia, morreram sua esposa e seus filhos. Ele foi o único sobrevivente, e devia amar sua esposa, tanto que após essa tragédia esse homem, que tinha nível superior, um ótimo emprego, um ótimo salário, perdeu a vontade de viver e acabou nas ruas, se tornou mais um mendigo. Como ele, muitos mendigos possuem um passado surpreendente. Alguns até de famílias ricas, estudaram em boas escolas, alguns até fizeram faculdade. Alguns tiveram bons empregos ou até mesmo foram empresários, donos de seus próprios negócios. Mas um dia passaram por um sofrimento maior do que podiam suportar, perderam a mulher que amavam, os filhos... perderam tudo que dá sentido a vida de um homem, a mulher e os filhos que ele ama, o motivo de todo seu esforço e seu trabalho, que lhe dão prazer por cada gota de seu suor. Perderam sua razão de viver, e não vêem mais sentido em viver, nem motivo para se levantar e trabalhar. Por isso, acredito que entre todos os motivos que levam um homem a miséria, no peito de cada mendigo bate um coração partido.

Por isso também não existem tantas mulheres vivendo na miséria, apesar de uma grande parte das mulheres viver em depressão. Pois as mulheres sofrem de depressão por falta de amor, falta de serem amadas. Os homens, sofrem de depressão pelo amor por uma mulher, que o desprezou, desprezou seu amor, ou que morreu. De qualquer forma, a falta da mulher que ama pode acabar com a vida de um homem, que pode acabar no fundo do poço se não se agarrar a tempo a alguma coisa que o ajude a levantar. Mulheres sofrem por falta de serem amadas. Mulheres não sabem o que é amar e serem desprezadas, porque mulheres não amam homens... acham que amam, dizem que amam... mas mulheres não entendem o que é amor. O único amor que as mulheres sentem realmente é pelos filhos. O que é ótimo do ponto de vista evolutivo... por isso o homem dá sua vida pela mulher e filhos, enquanto a mulher sobrevive a perda do homem para proteger os filhos.

Infelizmente, a confusão do século 20 bagunçou a sociedade a tal ponto que hoje mulheres desprezam o amor, para viver em depressão pela falta de amor. Enquanto homens sofrem pela falta da mulher que amam, podendo acabar na sarjeta ou seguir a vida como podem... podem encontrar uma boa mulher, mas a falta do amor, amor de verdade, não esse amor do qual as mulheres falam da boca pra fora com tanta facilidade, esse amor superficial das mulheres... mulheres banalizam tanto o amor, talvez por isso não lhe dêem o devido valor, talvez por isso não respeitem o amor de verdade, pois banalizam o amor, não entendem o que é amor de verdade, falam em amor como se fosse pão francês... fácil de encontrar, barato, possível de escolher, de experimentar em várias padarias para escolher o melhor, o mais macio, mais ou menos assado, a gosto do freguês...

Ano passado passei algum tempo em minha cidade natal. Andando pela cidade, parei para tirar fotos de uma escola, preocupado com um mendigo na calçada do outro lado de uma padaria, talvez esperando alguma coisa para comer... não me lembro como comecei a falar com ele, mas logo percebi que aquele homem tinha uma boa formação, conhecimento, falava bem, inteligente... conversei com ele, que me contou um pouco de sua vida... fiquei comovido com sua história, um oficial do exército, não lembro a patente, mas era média pra alta... talvez Major. Fiquei comovido, conversando com um Major do Exército naquela situação, vivendo nas ruas, sentado a sarjeta, ouvindo um jogo de futebol em seu radinho, com seu cachorrinho, seu melhor amigo e único companheiro... aposentado, com um bom salário, do qual sobrava pouco descontando o que pagava a um advogado, o resto ficava com sua família... sim, ele tinha família, tinha uma casa, de onde fugiu porque não aguentava mais o inferno que era sua vida em casa, com a família. Longe de casa, não sei como foi parar naquela cidade, longe de onde vive sua família, apesar da situação miserável, esquelético, enfraquecido, mas tranquilo, aparentemente satisfeito por viver tranquilo nas ruas com seu cachorrinho, uma tranquilidade que ele não tinha em casa... fiquei comovido com sua história, anotei seu nome e comuniquei a Delegacia do Exército... se encontrar o nome dele, deixarei aqui, gostaria muito que alguém pudesse tirá-lo da sarjeta, onde ele se diz tranquilo e satisfeito, longe dos problemas e das preocupações...

Como aquele homem, muitos outros estão na sarjeta, mas muitos mais vivem na miséria mesmo cercados de luxo... infelizes e frustrados em uma família desestruturada pela falta de amor. Amor que eles têm no coração, só não tem a mulher que amam, que os desprezou. Vivem ao lado de mulheres que sofrem por não serem amadas, mas que também desprezaram o homem que as amava. Um problema complicado, que não tem solução. Como aprendi quando era criança, tentar corrigir um erro, normalmente é um erro ainda maior. E como aprendi sofrendo, entender nossos problemas não resolve, mas ameniza... entender os problemas traz tranquilidade, pois ficamos ansiosos, sofrendo, focados no problema. Entender a origem da nossa situação é o primeiro passo para seguir em frente e viver a vida da melhor maneira possível, senão a vida que sonhamos, pelo menos viver tranquilos... o importante é aprender com nossos erros, entender onde erramos, para não cometer os mesmos erros novamente... vivendo e aprendendo.

Aprender é fundamental, entender nossos erros. Não para consertá-los, mas para aceitar a vida como ela é. Não se iluda, os erros do passado passaram. Não tente reviver situações que o tempo levou. Nos resta aprender a viver com o que temos, aprender a sermos felizes com as pessoas que estão ao nosso redor. Só assim seremos felizes. Melhor um na mão do que dois voando... o que passou, passou, os erros do passado não podem ser consertados. Não se iluda, pois ilusão só resulta em desilusão. Resta aprender para aceitar a realidade, para vivermos felizes no mundo real. Esperar da vida um conto de fadas é ilusão.

Muitas mulheres desprezaram o amor de um plebeu esperando um príncipe encantado. Quando encontram o príncipe, são desprezadas porque não eram a princesa que o príncipe procurava, apenas uma plebéia, como aquele que elas desprezaram... não adianta chorar por não ser amada, após desprezar sua chance. Resta ser feliz com quem estiver ao seu lado. Dê as mãos e sejam parceiros na vida, da melhor maneira possível, com a pessoa que você tiver, mesmo sem amor. Pelo menos você tem alguém... desprezar esse alguém não trará amor, apenas solidão. Tentar corrigir um erro é outro erro...

Daniel Coelho
19/11/2010
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